quarta-feira, abril 29, 2026
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Audiência Pública debate impactos da mudança na jornada de trabalho da ArcelorMittal em João Monlevade

Nessa segunda-feira, 27, a Câmara Municipal de João Monlevade sediou uma Audiência Pública para discutir os impactos das alterações na jornada de trabalho dos empregados da ArcelorMittal no município. A reunião atendeu ao requerimento 22/2026 de autoria da vereadora Maria do Sagrado (PT). Segundo ela, o objetivo foi promover um espaço de diálogo sobre os reflexos sociais, econômicos, familiares e de saúde causados pelas mudanças na organização do trabalho da empresa.

Maria enfatizou que a Audiência Pública não tem caráter deliberativo nem de decisão, mas sim um espaço de escuta, de debate e de informações. “Aqui é a Casa do povo, e estamos sempre abertos para discutir quaisquer temas de quaisquer segmentos da sociedade”.

Participantes

Participaram da audiência os vereadores Belmar Diniz, Leles Pontes, Thiago Titó, Marquinho Dornelas e Bruno Cabeção; assessor de governo, Cristiano Vasconcelos; presidente do Sindmon Metal, Flávio de Paiva; secretário do Sindmon, Guilherme Bueno de Freitas; ex-funcionário da usina, Stenio Carvalho; Presidente do Sintramon, Letícia Lemos; o professor Leonardo Ferreira Reis, o presidente do PT João Monlevade Lucas Bicalho, bem como alguns funcionários e familiares.

Justificativa de ausência

No início da reunião, Maria do Sagrado leu uma correspondência enviada pela ArcelorMittal justificando a ausência. No documento, a empresa informou que o tema da jornada de trabalho está sendo tratado internamente junto com os empregados e o sindicato, por se tratar de uma questão de gestão interna. Segundo a siderúrgica, diante da ausência de acordo sindical e da necessidade de cumprimento da legislação, foi adotada a escala de turno fixo com jornada diária de 7h20, sem alteração no salário base.

A empresa também destacou que o setor siderúrgico enfrenta um cenário desafiador, com queda na produção, redução das margens de venda e forte concorrência do aço importado, o que inviabilizaria, neste momento, a proposta apresentada pelo sindicato. Ainda no texto, a empresa informou que foi proposto ao sindicato o estabelecimento de um acordo provisório por tempo determinado que permitia o retorno dos empregados ao turno de revezamento e ao restabelecimento das vantagens de remuneração oriundas de acordo anterior, mas a proposta não teria sido deliberada em assembleia. A ArcelorMittal reafirmou ainda seu compromisso com o diálogo e informou que segue buscando uma solução negociada junto à entidade sindical e os trabalhadores.

Representante do sindicato

O presidente do SindmonMetal, Flávio de Paiva, destacou que a audiência pública teve como principal objetivo dar transparência às negociações e garantir voz aos trabalhadores afetados pela implantação do turno fixo, classificado por ele como uma jornada desgastante e desumana.

Segundo Flávio, a mudança impacta diretamente 684 trabalhadores e suas famílias, envolvendo saúde, segurança e qualidade de vida. Flávio explicou que o acordo de turno de revezamento tem vigência de 2 anos, e que a primeira assembleia ocorreu em janeiro de 2025, já que o acordo terminava em fevereiro daquele ano. Nesta assembleia, segundo Flávio, os trabalhadores deliberaram que não queriam trabalhar na escala 6x3x3.

Ele afirmou que o sindicato defende a jornada de 12 horas no sistema 4×4, proposta já adotada em outras unidades da ArcelorMittal e considerada mais favorável ao convívio familiar e à saúde física e mental.

O sindicalista ressaltou ainda que o sindicato seguiu todos os trâmites legais e assembleias democráticas da categoria, reforçou que o intuito da audiência não foi em caráter de confronto, mas sim de defesa da saúde, da segurança e da vida além do trabalho.

Ao final, Flávio apresentou dois vídeos, sendo um sobre como foi a implantação da escala sugerida na cidade de Espirito Santo e um outro vídeo institucional da ArcelorMittal, produzido em 2029, onde retrata os benefícios do turno de 12 horas 4×4, tanto para os trabalhadores quanto para a empresa.

Depoimento

O ex-funcionário da usina, Stenio Carvalho, relatou sua experiência ao longo de diferentes escalas de trabalho e defendeu a jornada de 12 horas no sistema 4×4 como a mais equilibrada. Segundo ele, após vivenciar modelos como a tabela francesa, a escala 6x3x3 e o turno fixo, ficou evidente que a jornada 6x3x3 é extremamente desgastante e prejudica o convívio familiar, já que proporciona apenas de três a quatro finais de semana completos por ano, enquanto a escala 12x4x4 garante cerca de 22 finais de semana livres.

Ele destacou que essa mudança melhora a qualidade de vida, reduz o cansaço físico e mental, diminui o absenteísmo e contribui para maior estabilidade operacional da empresa. Stenio também afirmou que o debate não é contra a empresa, mas sim em defesa do diálogo e da busca por uma solução que beneficie trabalhadores, famílias e até o comércio local, reforçando que outras siderúrgicas já adotaram esse modelo com resultados positivos.

A presidente do Sintramon, Letícia, compartilhou sua vivência de nove anos atuando em escala noturna fixa no pronto atendimento do município. Ela relatou os prejuízos físicos, emocionais e sociais dessa rotina, destacando que o trabalhador precisa de tempo para descanso, lazer, família e autocuidado. Ela também alertou para o impacto no SUS e no Hospital Margarida e às unidades básicas de saúde, tornando essa uma questão que afeta toda a sociedade.

Impactos na saúde e economia

O professor Leonardo Reis, da Unifei de Itabira e especialista em engenharia de saúde e segurança, apresentou uma análise técnica sobre os impactos dos turnos fixos e noturnos. De acordo com ele, estudos científicos apontam aumento da pressão arterial, hipertensão, acidentes de trabalho, insônia, desgaste emocional e dificuldades no convívio familiar, especialmente entre mulheres.

Leonardo explicou que muitos trabalhadores buscam o adicional noturno porque grande parte recebe salários abaixo do chamado salário mínimo necessário para garantir o básico previsto na Constituição, o que torna esse complemento essencial para a renda familiar. Para ele, a redução desse adicional pode gerar perda salarial e afetar diretamente o comércio local e a arrecadação do município.

O vice-presidente da CUT Vale do Aço e presidente interino do Conselho Municipal de Saúde, Guilherme, falou da preocupação com aumento de doenças físicas e psicossociais, o que pode sobrecarregar ainda mais o Hospital Margarida e toda a rede pública de saúde da cidade. Guilherme ressaltou que o sindicato recebe constantemente trabalhadores adoecidos emocionalmente e que muitas vezes o município não possui estrutura suficiente para oferecer atendimento especializado.

Apoio e diálogo

O assessor de governo, Cristiano Vasconcelos, defendeu que uma escala mais equilibrada, como a jornada 12x4x4, já praticada em outras unidades da empresa, pode beneficiar trabalhadores e município, com geração de novos postos de trabalho, fortalecimento da economia e redução de gastos com saúde pública. Para ele, a solução deve vir por meio do diálogo entre empresa e sindicato.

O presidente do PT e servidor público, Lucas Bicalho, falou sobre o aumento dos casos de burnout e adoecimento mental no ambiente de trabalho. Ele sugeriu que a Câmara elabore uma moção de apoio às reivindicações do sindicato e também ao debate nacional sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, reforçando a importância de avanços na defesa dos trabalhadores.

Os vereadores Belmar Diniz, Leles Pontes e Thiago Titó, também manifestaram apoio à busca por soluções equilibradas. Belmar relembrou sua vivência como filho do sindicalista Leonardo Diniz e contou que acompanhou de perto os desafios enfrentados pelo movimento sindical, como pressões, cortes salariais e o desgaste que também atinge as famílias de quem está à frente dessas lutas.

Por sua vez, o vereador Tiago Tito demonstrou preocupação com os cerca de 700 trabalhadores diretamente afetados, alertando que a desmotivação dos funcionários pode gerar evasão de mão de obra e impactos negativos para a empresa e para toda a economia local. Segundo Titó, a cidade depende fortemente da usina para geração de emprego, renda e desenvolvimento, e qualquer instabilidade nessa relação afeta toda a população.

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