A gente aprende a ser o forte sem nem perceber. Vai ficando quieto, vai entendendo todo mundo, vai deixando pra lá. Vira aquela pessoa que escuta, que resolve, que segura a barra. Aquela que todo mundo chama quando precisa, mas que quase ninguém chama só pra saber se está tudo bem, se dormiu bem, se está precisando de alguma coisa também.
E assim vai aguentando. Aguenta a piadinha que machuca mas vem disfarçada de brincadeira. Aguenta o sumiço de quem jura que gosta. Aguenta a falta de um obrigado, de um retorno, de um gesto mínimo de consideração. Aguenta ser deixado pra depois, ser lembrado só quando convém, ser o que sempre cede. Cada coisa sozinha parece pequena. O problema é que nada vem sozinho, vem tudo acumulado.
A gente finge que está tudo bem. Responde com um “tranquilo” mesmo sem estar tranquilo. Continua sorrindo, trabalhando, ajudando. Porque tem medo de falar e perder gente. Porque cresceu ouvindo que amar é suportar, que ser gente boa é aceitar tudo calado, que reclamar afasta. Então guarda. Guarda hoje, guarda amanhã. Guarda o que doeu na semana passada.
E vai se apagando um pouquinho por dentro para manter os outros acesos. Ninguém percebe. É o mais doido. Porque enquanto a gente está segurando tudo, continuamos funcionando. Continuamos entregando, brincando, marcando presença. Ninguém repara que a paciência encurtou, que o sono já não descansa, que o peito pesa no fim do dia.
Só a gente sabe o quanto tem custado ficar bem o tempo todo. Até que um dia não cabe mais. Uma coisinha à toa, uma resposta atravessada, um esquecimento bobo. Para quem olha de fora parece exagero. Para quem aguentou por meses, por anos, é o ponto final. E a gente fala. Fala alto, fala chorando, fala tremendo.
Não por querer brigar, mas porque não tem mais onde guardar tanta coisa. E o que vem depois dói quase tanto quanto o que fez aguentar. De repente quem machucou por tanto tempo vira vítima. Quem nunca quis ouvir diz que é exagero. Quem nunca perguntou como a gente estava diz que a gente mudou, que ficou difícil, que ficou ingrato.
POR MARCOS ADRIANO







