domingo, junho 14, 2026
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Nova terapia contra câncer do sangue, CAR-T deve chegar ao SUS em um ano

Um dos 20 pacientes que participaram de teste da terapia, carioca de 64 anos comemora remissão da doença

DANIELLE CASTRO, da Folhapres. Após 13 anos de luta contra um linfoma e mais de 50 sessões de quimioterapia, o publicitário Paulo Peregrino entrou em remissão graças ao tratamento CAR-T Cell, que utiliza células do próprio paciente para combater o câncer.

O carioca foi um dos 20 pacientes que participaram dos testes conduzidos pelo Hemocentro de Ribeirão Preto, ligado à Universidade de São Paulo (USP), ele celebrou o avanço da terapia.

Terapia CAR- T Cell no SUS

Na  quarta-feira (10), aos 64 anos, Peregrino participou do anúncio feito pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, de que o tratamento que o salvou deve chegar ao Sistema Único de Saúde (SUS) em cerca de um ano.

Padilha visitou o Hospital das Clínicas e o Hemocentro de Ribeirão na quarta-feira (10), quando apresentou expectativas para o tratamento nacional de cânceres do sangue e entregou veículos e equipamentos do programa ‘Agora Tem Especialistas’.

“Os resultados preliminares são muito animadores, mais de 87% de resultado positivo de pacientes que já tinham passado por outras formas de tratamento, quimioterapia, radioterapia, transplante, e que veem agora no CAR-T Cell uma esperança de tratamento”, afirmou Padilha.

Evolução dos estudos

A pesquisa do CAR-T Cell teve início em meados de 2015 e, neste ano, deve começar a fase clínica final com 81 pacientes, com duração de cerca de um ano.

O estudo recebeu cerca de R$ 100 milhões do Ministério da Saúde em seus anos iniciais e é uma parceria governo federal com o governo do Estado de São Paulo por meio do Instituto Butantan, USP Ribeirão e Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

De acordo com Padilha, a pesquisa ainda está na fase de recrutamento dos pacientes, cujos resultados serão acompanhados por um ano pela  Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para estabelecer os marcadores de segurança e de eficácia e, então, seguir para o registro do produto e liberação para uso.

Redução de custos com tratamento

A tecnologia traz uma redução substancial dos custos para o SUS no tratamento de doenças como leucemia e linfomas —a terapia CAR-T feita pela universidade pública é 100% nacional e custa cerca de um quinto (algo em torno de R$ 500 mil) da versão similar comercial existente hoje no mercado, orçada em R$ 2,5 milhões por paciente.

Bruno Marques Giovanni, 33 anos, educador físico de Piracicaba, já havia feito até um transplante quando foi recomendado para terapia CAR-T de Ribeirão Preto em 2021 – ele está em fase de remissão da leucemia desde então e celebra ter tido acesso ao tratamento a tempo.

“Não senti reação pós e consegui voltar à minha rotina, à minha vida normal muito mais rápido em relação aos outros tratamentos que fiz. Não é tão agressivo comparado às outras linhas de tratamentos primárias”, conta.

Como funciona o tratamento CART-Cell

Até o momento, o tratamento com as células CAR-T só pode ser feito em pacientes com três tipos de câncer: leucemia linfóide aguda, linfoma não Hodgkin e mieloma. O tratamento funciona assim:

É feita a coleta de sangue do paciente para obter as células de defesa – os linfócitos T, ou células T;

O material coletado é enviado a um laboratório e passa por modificação genética para que consigam identificar as células cancerígenas;

Chamadas agora de células CAR-T, elas são devolvidas para o paciente por meio de uma infusão;

No corpo do paciente, as novas células se multiplicam e começam a eliminar o câncer.

Criada nos Estados Unidos, a tecnologia foi aprovada pela agência reguladora de saúde americana em 2017. Cerca de 50% dos pacientes permanecem sem a doença depois de cinco anos do tratamento e são considerados curados.

De acordo com Diego Villa Clé, o pesquisador principal do CAR-T e professor da FMRP-USP, a técnica pode ser usada futuramente para tratar outros tipos de câncer e também outras doenças.

Doenças autoimunes

“Estamos com estudos em fase final de aprovação para tratar doenças autoimunes. A primeira será o Lupus Eritematoso Sistêmico e, em seguida, a Miastenia Gravis”, adianta Clé.

Clé conta que os resultados mostraram que, em 50% dos pacientes com linfoma e, em análise intermediária, ainda sem chegar ao fim do estudo, a taxa de resposta chegou a quase 88% dos pacientes (87,6%), com menos desgaste e efeitos colaterais.

“É um tratamento que é ‘um tiro’, como a gente fala. É uma infusão, 20 minutos, normalmente, com uma célula que é do próprio paciente, que foi modificada, treinada em laboratório. Ela é viva, então ela persiste, se multiplica e combate a doença. Muito diferente de outros tipos de tratamento, que você precisa fazer várias sessões”, destaca o professor.

O “tratamento vivo” será monitorado de forma contínua em todos os participantes do estudo – cinco anos após a remissão, há pacientes que ainda tem os linfócitos-T (células de defesa usadas no processo CAR-T) infundidos presentes na corrente sanguínea.

“Os linfócitos são uma das células de defesa que circulam na gente. E é até um paradoxo, porque o próprio linfócito é a origem do linfoma e da leucemia. É um câncer dos linfócitos, mas é um tipo que chama linfócito B e a gente usa o ‘primo dele’, que é o linfócito T, por isso que chama CAR-T, porque a gente modifica o linfócito T”, explica Clé.

 

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