Meu vizinho quase partiu pra briga no domingo. Por causa de político. Ele, que mal consegue pagar a prestação do carro, berrando na rua, vermelho de raiva, defendendo um deputado que ele nunca viu na vida. Do outro lado, o cunhado, igualmente fodido, defendendo outro. Dois caras ralando pra sobreviver, prestes a se engalfinhar por gente que nem sabe que eles existem.
Terça-feira, cinco horas da tarde. Esses mesmos políticos, de todos os partidos, todas as cores, todas as bandeiras, se abraçaram num acordo lindo: R$ 77 mil de salário. Aprovado em cinco horas. Sem briga. Sem discurso inflamado. Sem treta nas redes sociais.
Cinco horas.
Sabe quanto tempo meu vizinho leva pra juntar R$ 77 mil? Uns cinco anos. Sem gastar nada. Sem comer, sem conta de luz, sem remédio pra mãe. Cinco anos inteiros do suor dele pra igualar um mês de salário de quem ele defende de graça na internet.
Tem gente que acha que partidos diferentes importam pra essa turma. Besteira. Quando chega a hora de enfiar a mão no cofre, eles são todos da mesma família. Primos. Irmãos. Sócios.
Ser parlamentar no Brasil não é trabalho. É ganhar na loteria sem comprar bilhete. É nascer de novo, mas dessa vez no lugar certo.
E o povo? O povo segue brigando. No bar, no WhatsApp, no portão de casa. Cada um achando que o seu político é diferente, é honesto, é do bem. Enquanto isso, lá em Brasília, eles jantam juntos. Riem juntos. Votam juntos.
A gente que tá se matando sozinho. Por gente que nem liga a televisão pra ver a gente sangrar.








